Thursday, July 12, 2007

The horror, the horror!

O Heart of darkness de Conrad possui diversas dissemelhanças com a sua adaptação cinematográfica, o conhecido Apocalypse Now. A primeira é a figura de Kurtz. Na representação de Marlon Brando, Kurtz é um homem imponente, pesado, de gestos demorados e lânguidos que se confundem com os de um scheik ou de um imperador romano. Na descrição de Conrad, Kurtz é um homem esquelético, com as omoplatas perfeitamente desenhadas sob uns ombros descarnados, os braços compridos e adejantes como a ossatura de um pássaro. Pelo seu corpo perpassa a aura da doença, do esgotamento, do último suspiro do moribundo. Os olhos são cavados e por vezes inexpressivos, mas guardam aquela nitidez de alguém que sabe que a morte se aproxima. Que contraste com o Kurtz-Brando, com a sua postura ameaçadora e o olhar alucinado de um Serial-killer em noite de matança!
A segunda dissemelhança prende-se com a morte de Kurtz. Este morre de facto; mas não é assassinado, e a mão de Marlow (o narrador) serviu mais para o desterrar numa liteira do que para o assassinar com um punhal. O anjo assassino cuja representação cabe a Martin Sheen não encontra paralelo no eloquente Marlow e nos auspícios do seu barco a vapor. Kurtz acaba por morrer na viagem de regresso, uma morte inglória e sem heroísmo pontuada pelas famosas palavras – essas sim retidas na adaptação de Coppola – the horror, the horror! A diferença é que não há qualquer batalha titânica – mesmo na sua dimensão psicológica – entre o bem e o mal, figurados pelo embate, tanto físico como psíquico, entre Sheen e Brando. Mas a mais fundamental das omissões, quanto a mim, encontra-se no facto de a mulher que absolve Kurtz pelo poder do amor não ter qualquer paralelo no Apocalypse now. No segundo, a história de Kurtz morre ali, nas densas florestas do Cambodja. Assim como continua na mente de Marlow na elegante metrópole londrina. O amor de uma mulher que diz ser a única a compreender Kurtz é acompanhado pela admiração, melhor dizendo, o fascínio, do homem que empreendeu a viagem mais arriscada da sua vida pelas brenhas do desconhecido, apenas para enfrentar o enigmático Kurtz. Quando esta mesma mulher o interroga sobre as Kurt’s famous last words, Marlow evita o “the horror” e mente, dizendo que estas foram o nome da mulher que sempre o amou. Nem ela podia esperar outra coisa, anuindo que só essas poderiam ter sido as suas últimas palavras. Porque não quer Marlow magoar a mulher que sempre amou Kurtz e que tem ele a ganhar com isso? A resposta, alvitro, encontra-se no nome “Kurtz”. Como alguém repara durante a narrativa, Kurtz possui a mesma sonoridade de Kurz, que em alemão significa “curto”, “pequeno”, “breve”, “rápido”. São portanto aproximações fonéticas. Julgo que o mistério de Kurtz não se encontra na possibilidade de ele ser a personificação do mal, como sugere a interpretação de Coppola, mas antes de ele ser a personificação da vida, com o seu correspondente lado negro, obscuro. O arquétipo a que Kurtz convida prende-se mais ao vitalismo nietzchiano do que à maldade mefistofélica. Se Kurtz é um problema, é-o na medida em que rompe com as regras do sistema, na medida em que já não é passível de ser controlado pela máquina do império. A curiosidade de Marlow por Kurtz é inteiramente correspondida quando confrontado com o reino de liberdade que este último construiu, longe do cinismo civilizacional. Não entro na análise da estrutura imperial que é patente em toda a obra e que Said teve o mérito de nos oferecer as coordenadas. Com isto quero dizer que não me sinto propriamente à vontade com as leituras pós-coloniais de alguns romances da viragem do século – não creio que acrescentem grande coisa, nem que esclareçam o suficiente. Parece-me que mais importante do que esta estrutura implicita, é a explícita exploração dos limites do humano e da sua psicologia. Só assim se pode compreender que Marlow pronuncie a seguinte frase que contém uma suma beleza aterradora “We live as we dream – alone”. Este é o segredo de Kurtz; é esta a mensagem que a brevidade da sua vida pretendeu contrariar.

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