Wednesday, July 04, 2007

Teoria da conspiração

Espalhou-se a ideia de que vivemos num sufocante totalitarismo antidemocrático. Na blogosfera, na imprensa escrita, na televisão, são inúmeras as intervenções e testemunhos nesse sentido. A ideia não decorre de uma constatação genérica, discurso especializado sobre as agruras e novidades do hipermodernismo que tivesse a intensão de denunciar e analisar a nova sociedade de controlo. Pelo contrário, a ideia que tem sido reiterada até à exaustão prende-se com uma subterrânea ligação entre este putativo estado de controlo absoluto e o governo socialista. Aqui aparecem as mais disparatadas associações: desde o Ppereira e a horda de extrema-direita do Blasfémias e quejandos a equacionar a situação actual com o pesadelo Orweliano até ao latir do VPV no pasquim Publico a suspirar por tempos mais serenos onde as quinas ainda enfeitavam uma bela lapela de cor bége.
Há pelo menos duas ideias que perpassam nesta litania; as duas, quanto a mim, tão inteligentes quanto cínicas e mentirosas. Primeiramente, uma decorrência natural (estrutural) do ideário socialista para uma sociedade totalitária. Esta é a forma mais exagerada, mas porventura também aquela que provoca um impacto maior. As frases feitas vendem bem no mundo dos tablóides. Esta vertente apresenta o comportamento do partido socialista actual como a sua real natureza; uma espécie de revelação da sua verdadeira identidade que só poderia desembocar no controlo absoluto. Segundo esta linha de raciocínio, todo o socialismo, mesmo o socrático, acaba pervertido naquilo que em essência sempre sonhou ser: um Estado totalitário de poder concentracionário.
A segunda linha é mais branda e advoga que as formas censurantes deste governo socialista são qualitativa e quantitativamente diferentes das dos anteriores governos. É com Sócrates, dizem os seus arautos, que as liberdades se restringiram à sua menor expressão – porque o homem é despótico por natureza (lembra-se o jargão do quero posso e mando aplicado frequentemente a Sócrates) e porque quem lhe faz frente não resiste nem mais um dia. Um Calígula dos tempos actuais, portanto. Esta segunda vertente da paranóia libertária encontra a sua expressão mais enfática nos artigos de ABarreto.

Seja como for, a mensagem central é a de que se assiste a uma superlativização do poder socialista na sociedade portuguesa. Esta teoria, que tem muito de próximo com uma banal teoria da conspiração, parte do pressuposto de que a sociedade portuguesa era transparente e livre antes da chegada dos socialistas ao poder governativo. Elabora-se portanto consoante duas falácias, a saber, a sociedade portuguesa é transparente e os seus cidadãos são livres de optar, a sociedade portuguesa encontra-se refém de uma estratégia de sabotagem das liberdades individuais, estratégia essa que é reconhecível pelo proliferar do aparatus do poder. Esta proliferação não se restringe à mera constatação da distribuição de lugares públicos pelos membros do partido do governo, algo que seria prontamente assimilável a uma estratégia partidária. Vai muito para além disso. Assim, pode PPereira fazer soar os sinos a alertar a população contra a via verde, o cartão do cidadão, etc (estranho é que deixe de fora o telemóvel) num artigo que tem tanto de disparatado como de cómico (No Público de 26 de Maio de 2007 sob o título “Uma vida, uma ficha”). Todo o artigo sugere que esta parafrenália de tecnologias do poder foi implementada pela mão centralizadora de Sócrates. PPereira acordou para a evidência do controlo orweliano com a ditadura socrática; acordou portanto, tarde.
O que faz pena é que os “tempos que correm” mereciam de facto uma análise das deficientes liberdades e da gradual supressão dos direitos. Eventualmente enquadrada na conceptualização da hipermodernidade, que me parece ser o modelo teórico que melhor capta as modificações sociais e políticas pelas quais temos vindo a passar. A hipertrofia descabelada das críticas à conduta socialista esconde a exígua atenção prestada a estas dinâmicas, bem mais fundamentais para perceber o clima sufocante para onde as democracias actuais nos conduzem. Sucede que estas estão muito para além da efemeridade de um qualquer governo socialista.

0 Comments:

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

<< Home