Friday, June 22, 2007

O eixo dos beatos


Começa-se gradualmente a perceber o que aconteceu na Europa neste últimos dez anos. Algo que já estava latente na cimeira dos Açores, que consagrou os líderes Aznar e Barroso como os paladinos do eixo do bem deste lado do Atlântico, e que tem vindo a alastrar como uma vaga poderosa no seio das elites políticas. O beija-mão ao Papa que várias figuras da política europeia pressurosamente alimentaram, tem o seu seguimento nas conversões e confissões de outros tantos. Agora foi a vez de Blair anunciar o seu desejo de se converter ao catolicismo. Só agora o fez porque as condições políticas não o propiciavam anteriormente. Com esta sua decisão, Blair será o primeiro Primeiro-ministro inglês católico, embora rezem as crónicas que de há muito que era praticante. A influência do priorado também já de algum tempo para cá se fazia sentir no Nº10. Os ventos do catolicismo romano começaram a soprar com mais ímpeto a partir do momento em que Blair decidiu substituir as prestações sociais às diversas organisações não-governamentais, pela expansão do sector do providencialismo católico. O mesmo movimento pode ser identificado em Portugal na era do Guterrismo. Esta foi também uma agenda partilhada por Merkel, e não será exagero se virmos na boa vontade sarkoziana para com os imans e as mesquitas a mesma intenção de reforçar o peso da religião na vida dos cidadãos. A encíclica do Papa, que não fala por falar e que se encontra sempre a par das negociatas políticas da elite europeia, enunciava os princípios pelos quais a secularidade do estado, assim como concebida pela república dos Jacobinos, enfermava de diversas maleitas, entre elas a falta de moralidade do exercício público de funções. Fica aí claramente estabelecida que o Vaticano “exige” que a igreja tenha um papel interventor na condução dos negócios de estado. A razão teológica, segunda esta linha, é inseparável da razão de estado.
Também não terá sido por mera coincidência que surge um Papa alemão – ainda por cima com umas credenciais tão duvidosas – no reinado de Merkel. E ainda menos o será, a crescente influência da católica (fanática) Polónia nas decisões europeias. Esta última prima por ser um misto de beatisse reaccionária com nacionalismo rançoso – algo que nunca se deu mal em conjunto. A Polónia, no cenário europeu actual, gosta de exibir a sua faceta de enfant terrible oferecendo, para gáudio dos mais saudosistas, exemplos do mais bárbaro e atrasado conservadorismo. E tudo com o beneplácido do Papa de Roma. Foi, e é, a cruzada nazi contra os homossexuais – lembrar que os professores homossexuais estão proíbidos de dar aulas nas escolas. Foi a renitência hipócrita em implementar legislação antidiscriminação. É o apoio servil aos círculos mais reaccionários do catolicismo na Polónia cujo epítome seria a radio Maria.
Mas a Polónia vem agora exigir que se dêem direitos aos mais pequenos com a justificação absurda do desgaste demográfico durante a II Guerra mundial provocado pelo extermínio nazi. Curiosamente, o mesmo Kaczynski que engendrou esta original teoria demográfica, não se incomodou muito com o facto de o Papa vigente ter estado nas mesmas fileiras que os seus congéneres exterminadores de judeus. Quanto a este pequeno detalhe fica tudo na paz do Senhor.
Olhando com atenção os novos conservadores, é difícil perceber onde acaba a política e começa a beatisse. Estas questões seriam de somenos se eles não detivessem de facto o actual poder na Europa. Ela é a beata Merkel; ele é o beato
Sarkozi; ele era o beato Berlusconi; ele era o beato Aznar; ele é o beato Barroso; ele é o beatíssimo Fratini; ele é o fanático Kaczynski e podíamos continuar pela Rep. Checa, pela Áustria de Shussel, pela Dinamarca do Volkspartei (embora esta não seja da apostólica romana, mas nem por isso é menos beata); e, finalmente o recém-convertido Blair. Este panorama é por demais convincente para que ainda restem dúvidas de que estamos perante uma nova era da cristandade europeia. O Papa sabia-o bem quando proferiu a sua lecture em Ratisbona.

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